Esta é a história de um
avarento, que vivia numa grande mansão, no cimo de uma erma colina. Certo dia,
uma coisa aconteceu, que mudou a sua vida para sempre.
A casa do homem era muito velha e cheia de correntes de ar. O avarento vivia sozinho, com excepção de alguns criados e de um cão, ao qual nem sequer dera um nome. O velho dormia e comia numa das muitas torres da mansão, e passava os dias a contar o seu ouro. O ouro era aquilo de que mais gostava no mundo, e nunca o partilhava ou gastava.
A casa do homem era muito velha e cheia de correntes de ar. O avarento vivia sozinho, com excepção de alguns criados e de um cão, ao qual nem sequer dera um nome. O velho dormia e comia numa das muitas torres da mansão, e passava os dias a contar o seu ouro. O ouro era aquilo de que mais gostava no mundo, e nunca o partilhava ou gastava.
Todos o conheciam como
o homem mais avarento que alguma vez existira. Nunca convidava ninguém para
casa e nunca dera um presente a quem quer que fosse. Na realidade, só saía uma
vez por ano, porque tinha medo de gastar dinheiro. E, quando saía, viajava numa
carruagem imponente, acompanhado pelo cão e por um criado, para cobrar os
impostos dos camponeses pobres que cultivavam as terras dele.
Numa dessas vezes, quando regressava a casa,
ao anoitecer, vindo de um bem sucedido dia de cobrança de impostos, e
firmemente agarrado ao saco cheio de ouro, a carruagem foi detida por
assaltantes. O avarento bem gritou por socorro, mas em vão. Os ladrões
tiraram-lhe as roupas, obrigaram-no a vestir trapos, e levaram-no, com o cão,
para bem longe no campo, onde o deixaram sem comida nem bebida.
O homem ficou deveras
abalado e pôs-se a gritar com o cão, a quem nunca pusera nome, por o animal não
ter atacado os assaltantes. Estava agora a escurecer e encontravam-se ambos
completamente perdidos. Desesperado, o homem rastejou para debaixo de uma sebe,
onde ficou a chorar e a pensar no ouro roubado até adormecer. Quanto ao
cãozito, enrolou-se perto dele.
No dia seguinte, o homem acordou com frio,
dores e fome, e foi com o cão em busca de uma aldeia. Andaram e andaram até
que, por fim, chegaram a uma estrada. Não se via vivalma, e o avarento estava
cheio de fome e de pena de si próprio. De repente, o cão ladrou e desatou a
correr.
O homem seguiu-o e
deparou com uma pequena cabana isolada, rodeada de rosas silvestres. Quando viu
fumo branco a sair da chaminé, sentiu-se encorajado e bateu à porta. De
repente, contudo, hesitou, ao lembrar-se de como sempre tinha mandado embora os
que lhe batiam à porta para pedir ajuda. Quem quereria ajudar um andrajoso como
ele? Estava quase a dar meia volta quando ouviu uma voz prazenteira perguntar:
— Quem é?
— Quem é?
Aliviado, o avarento
respondeu, humilde:
— Desculpe incomodá-lo, mas estou perdido e tenho fome. Será
que me poderia dar um pouco de comida, para mim e para o meu cão? E um lugar
quentinho para dormirmos?
— Claro que posso — respondeu a voz amistosa. — Entrem.
— Claro que posso — respondeu a voz amistosa. — Entrem.
Entraram na cabana, que
encontraram bastante despida. Na sala só havia algumas peças de mobília e as
janelas não tinham cortinas. Mas a lareira estava acesa, e um velho de ar
bondoso estava sentado à mesa. Junto dele, um cão castanho abanava a cauda e
sorria. O homem levantou-se e riu com gosto, dizendo ao cão:
— É uma pobre alma perdida, Archie, e trouxe-te um novo
amigo!
Depois, virando-se para o avarento, convidou:
— Entre e sente-se. Seja bem-vindo ao meu festim! Hoje vamos
ter um banquete de arroz delicioso! — brincou.
Foi a uma prateleira
buscar duas tigelas pequenas e disse:
— Vamos ter de partilhar este arroz, porque é tudo o que tenho. E o seu cão vai partilhar a comida do Archie.
— Vamos ter de partilhar este arroz, porque é tudo o que tenho. E o seu cão vai partilhar a comida do Archie.
O velho deitou algum arroz na tigela grande de
Archie para os dois cães e dividiu o que sobrou entre ele e o avarento, que
estava pasmado com tanta generosidade. Como podia aquele homem ser tão feliz
apesar de ser tão pobre? O avarento pensou no seu ouro, nos seus criados e na
sua mansão. Apesar de ter tudo isto, nunca se tinha sentido tão feliz como este
homem que tinha tão pouco. E sentiu culpa e vergonha pela sua conduta avarenta
ao longo de todos aqueles anos.
A fome trouxe-o de volta para o presente, e
comeu o arroz com sofreguidão, pensando que nunca provara nada tão delicioso.
Em breve se sentiu contagiado pela afabilidade do velho e deu por si a
contar-lhe como tinha sido roubado. O velho ouviu o relato com atenção e
disse-lhe, depois:
— A sua história entristece-me. O senhor tem tanto e, no
entanto, a sua vida é tão vazia e solitária.
Ofereceu ao avarento o
seu lugar em frente da lareira, deu-lhe as boas noites, e deitou-se no chão
para dormir.
O avarento ficou tão
comovido com a bondade do velho, e tão grato, que, enquanto o sono não chegava
e ele pensava no que tinha acontecido, o gelo do seu coração começou a
derreter. As lágrimas correram-lhe pela face ao dar-se conta de quão horrível a
sua vida era na realidade. E, pela primeira vez, fez uma festa ao cão a que
nunca dera um nome. Tomou, também, a resolução de retribuir a generosidade do
homem.
Na manhã seguinte,
quando acordou, convidou o velho e o cão a virem viver com ele na mansão,
oferta que ambos logo aceitaram, com alegria. E, sem demora, partiram para
casa.
A partir desse dia, o
avarento mudou o seu comportamento. Ele e o velho tornaram-se amigos e viveram
felizes com Archie e Merry, nome que deu ao seu cão, que cresceu a olhos vistos
com o carinho do dono. Nunca mais ninguém foi mandado embora da mansão de mãos
vazias e, em vez de cobrar impostos, o avarento usou o ouro para melhorar as
condições de vida da população local. Duas vezes por ano, convidava os vizinhos
e as crianças para festas que eram tão divertidas que se tornaram no tópico de
conversa de todos.
A ambição e o egoísmo
estragam tudo e todos.
Uma pessoa sensata sabe
que o caminho para a verdadeira felicidade passa pela partilha do que tem, por
pouco que seja.
DharmachariNagaraja
Buddha at bedtime
London, Duncan Baird Publishers, 2010
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